domingo, Fevereiro 19, 2012

Rumos e acontecimentos

Nos momentos de crise, de verdadeira crise, existem dois tipos de pessoas que se distinguem quanto às decisões que tomam e às acções que empreendem, em função da análise que realizam da sua circunstância ou, se quisermos, da realidade: as que pressentem, ou percebem antecipadamente, para onde os acontecimentos as poderão levar, e as que acabam por ser levadas pelos acontecimentos.


As primeiras acabam por agir por antecipação e alteram a sua circunstância, escapando aos derradeiros acontecimentos, por vezes no último momento; as segundas não agem, por alguma razão, e acabam por ser vítimas dos acontecimentos. Neste segundo grupo existem ainda aqueles, mais impotentes, que, percebendo para onde os acontecimentos os poderão levar, guardam sempre a secreta esperança que, de um momento para o outro, tudo se altere e tudo volte à normalidade. E inexplicavelmente guardam esta secreta esperança mesmo quando o correr dos acontecimentos anuncia a iminência de uma tragédia inelutável e fatal. É muito humano que assim seja. Afinal não é a morte certa, e contudo, não vivemos nós como se jamais fôssemos morrer?

Recordo-me dos judeus que habitavam na Alemanha hitleriana naqueles anos 30 do século XX, quando a marcha dos acontecimentos já fazia adivinhar a Noite de Cristal e depois a Shoah. Viviam-se tempos de morte anunciada e no entanto, muitos não fugiram, nem lutaram. Os acontecimentos tomaram conta deles e eles acabaram nos campos de concentração e depois foram exterminados. Outros, mais prescientes, esclarecidos, e mais ricos, trataram de assegurar a sua salvação, saindo logo que puderam, da Alemanha primeiro, e da Europa continental depois. Um famoso exemplo é o da família de George Steiner.

Pois bem, também neste momento, em Portugal, todos os sinais apontam para a iminência de uma ruptura económica e social de consequências profundas, imprevisíveis e até trágicas para a democracia e para a grande maioria dos portugueses (claro que não é algo como a Shoah ou a Noite de Cristal, esses acontecimentos só foram abordados como exemplo). Mas existe a sensação de que as circunstâncias se complicam e aprofundam cada vez mais, numa espiral, da qual ninguém vê o fim.

Face a esta situação, impõe-se que não nos deixemos levar, nem enlevar pelo rumo dos acontecimentos. Por outras palavras, ou tomamos os acontecimentos nas nossas próprias mãos, ou, caso contrário, acabaremos por ser levados pelos acontecimentos.

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